sexta-feira, 19 de julho de 2024

A Luta pela saúde mental na comunidade LGBTQIAPN+

O auxiliar de cozinha Rafael Oliver, 20, residente de um bairro quilombola em São Luís, tem uma vida marcada por desafios desde a adolescência. “Desde cedo, percebi ser diferente, mas a realidade da comunidade onde cresci me ensinou que era mais seguro esconder quem eu realmente sou. O medo de ser descoberto como gay sempre esteve presente, e a rejeição parecia inevitável”, recorda.

Quando seus pais descobriram sua orientação sexual, a reação foi avassaladora: “Meu pai bateu no meu rosto, gritou, me chamou de ‘bicha’ e disse que a partir daquele momento eu não era mais filho dele, porque ele não tinha gerado aberação humana”, contou. Expulso de casa aos 17 anos, Rafael chegou a dormir em um terminal de ônibus por três noites e até mesmo a mãe foi proibida de ajudá-lo.

Após enfrentar noites de frio e fome, a única solução encontrada por Rafael foi se submeter a situações de abuso sexual. “Conheci uma pessoa em situação de rua que me levou para um casarão abandonado, me deu comida e abrigo. Fui abusado sexualmente e, sem alternativa, aceitei. A sensação era de ser um lixo humano, abandonado e sem apoio”, relembra. Com os traumas vividos no decorrer dos anos, ele desenvolveu depressão e ansiedade. Hoje, encontrou “a cura” na religião.

ESTATÍSTICAS

O drama do auxiliar de cozinha, infelizmente, não é exceção. Estatísticas globais evidenciam a gravidade do problema. Estudo piloto da pesquisa Smile, liderada pela Universidade Duke, nos Estados Unidos, que investiga a saúde mental de pessoas identificadas como minorias raciais e de gênero, gerou fundamentos para a segunda etapa de um trabalho que está em andamento. A coordenadora do estudo no Brasil é a professora Jaqueline Gomes de Jesus, vinculada ao Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ) e à Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

Segundo os dados da pesquisa, cerca de 52% dos jovens LGBTI+ já se automutilaram, comparado a 35% dos jovens cis héteros. Além disso, pessoas trans apresentam taxas mais altas de problemas de saúde mental do que pessoas cisgêneras lésbicas, gays e bissexuais.

Os dados também revelam que 44% das pessoas LGBTI+ pensaram em suicídio, contra 26% de cis héteros; 92% dos jovens trans tiveram pensamentos suicidas e 84% se automutilaram. As tentativas de suicídio também são significativamente mais altas entre a comunidade LGBTQIAPN+, variando de 5% a 46% entre diferentes subgrupos da sigla. Na população em geral, esse índice é de 1,2%.

A estudante universitária Júlia Mendes, 22, relata que se identificar como uma mulher lésbica tem sido fonte de sofrimento e dor. “Deveria ser algo natural, mas para mim, tem sido uma fonte constante de sofrimento. Desde a adolescência, enfrento uma batalha interna e externa que me levou a desenvolver depressão e síndrome do pânico”, desabafa.

Até hoje, a estudante nunca encontrou a oportunidade de dizer aos pais quem ela realmente é. Perante a família, ela se comporta como se fosse heterossexual. “Namorei um vizinho para tentar esconder que sou lésbica e considero que fui violentada, pois transar com ele sem desejá-lo e contra a minha vontade foi uma violência. Minhas noites eram preenchidas por insônia e crises de choro”, relembra.

O impacto na formação da identidade e na saúde mental

O psicólogo clínico e professor do Centro Universitário Estácio São Luís, Gustavo Chaves, destaca o impacto profundo dessas experiências na formação da identidade e na saúde mental dos indivíduos LGBTQIAPN+. “A população LGBTQIAPN+ cresce internalizando esse lugar de não pertencimento,” observa Chaves. Ele explica que a discriminação contínua resulta em sentimentos de deslocamento e desvalorização, levando a altas taxas de depressão, ansiedade e outros transtornos mentais.

“As estratégias para melhoria não podem recair somente sobre os indivíduos. O autocuidado de uma população que está muito fragilizada é muito difícil. Isso deve vir das instituições, da conscientização social, do judiciário, da igreja, das escolas e do campo sociopolítico. Não basta ser passivamente não preconceituoso; é essencial ser ativamente anti-LGBTQIAPN+fóbico para construir uma sociedade justa e acolhedora”, ressalta.

O professor explica que nos casos em que há discriminação e preconceito, o ambiente é visto como desumanizador para esses indivíduos desde a infância. “Essas pessoas se subjetivam no lugar de preconceito e internalizam diversas crenças de desamor, porque elas são, desde muito cedo, na família, na escola, nas igrejas, alvo de discurso e práticas que ensejam o auto-ódio, a vergonha, a não aceitação”, explica.

O ambiente social hostil contribui para o desenvolvimento de diversos transtornos psicológicos. “Muitos desenvolvem algo que a gente chama de desamparo aprendido, que é a ideia de que não existe mais nada que possam fazer para se livrar da dor e violência”, conta o professor.

INCLUSÃO

A construção de um ambiente mais inclusivo e seguro, segundo Chaves, depende de mudanças estruturais e do reconhecimento da diversidade. Por falta de informação adequada, tanto Rafael quanto Júlia, chegaram a acreditar, durante um determinado tempo, que precisavam ser “curados”. O professor afirma, porém, que a verdadeira cura precisa ser a do preconceito. “A cura precisa ser contra o preconceito, reconhecendo o direito de todos caminharem juntos nas suas divergências e nas suas diferenças,” finaliza o psicólogo.

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