O grafite, forma de expressão e intervenção urbana, é considerado uma ramificação das artes visuais. Espalhado pelos muros da cidade formal, composta pelos bairros onde o investimento público é notório e a informal, marcada pela ausência de infraestrutura e planejamento, sua importância enquanto arte de rua se manifesta em seu caráter acessível, a rua funciona como um grande mural, uma galeria a céu aberto. Na cidade de São Luís, o grafite é presente desde as paredes das palafitas, passando pelos pilares da ponte, até escadarias.

A arte em si, tem um grande potencial de transformação do meio em que se insere. A arte de rua, especialmente, é um instrumento de exteriorização da voz e da consciência do artista, um reflexo da sua vivência, mais do que o apelo visual, o grafite busca transmitir uma mensagem. Por esse motivo, foi escolhido como tema de uma oficina que aconteceu no último domingo (7), em uma unidade de socioeducação da FUNAC, na qual artistas foram convidados a desenvolver trabalhos com a participação dos jovens em acolhimento.

Grafite realizado por Edi Bruzaca em parceria com Romildo Rocha e jovens do Sítio Nova Vida. (Foto: Jasf Andrade)

Na ocasião, conversei com os artistas visuais Edi Bruzaca e Romildo Rocha sobre a receptividade dos seus respectivos trabalhos em determinados espaços e contextos. Iniciei com o questionamento de como eles veem o grafite em cenários de repressão e reconhecimento. Edi, em seu depoimento, abriu um debate a cerca do que seria o reconhecimento. Para ele, a assistência dada ao profissional financeiramente e os auxílios para alimentação e transporte, além do entendimento das especificidades da arte são essenciais.

“O primeiro ponto é entender o que é reconhecimento para um artista de rua, porque às vezes, um empresário, um dono de casa, até mesmo um diretor de uma escola ou de outra instituição convida um grafiteiro, uma grafiteira pra fazer tal coisa no estabelecimento deles, quais são as condições que eles entregam para esse artista?”

Rocha, por sua vez, discorreu sobre a repressão que a arte pode sofrer de acordo com os diferentes espaços que compõem a cidade.

“O grafite, dependendo do local em que ele é inserido, tem alguns problemas. Na periferia, de forma geral, ele é muito bem aceito, as pessoas tratam a gente muito bem, rola muito de o pessoal dar comida, bebida, sentir a gente ali no sol e perceber que a gente tem algumas necessidades. Nos bairros mais “nobres” da cidade, as pessoas veem uma lata na mão e já imaginam que aquilo ali é vandalismo”

Recentemente, o grafite do artista Gil Leros foi utilizado na revitalização da Escadaria dos Barqueiros, hoje Beco da Coreira, localizada atrás do Viva Cidadão da Beira Mar. Esse espaço urbano, que antes era desconhecido, hoje é frequentado por dezenas de moradores e turistas e é reconhecido como uma exaltação à cultura maranhense. Em outros ambientes, no entanto, há repressão por parte do Estado e da sociedade. Há casos em que, no exercício do grafite, artistas são detidos e impedidos de se expressar.

Romildo Rocha e grafite realizado por ele em parceria com jovens do Sítio Nova Vida. (Foto: Jasf Andrade)

A dicotomia a qual a arte de rua é submetida, por vezes reconhecida, outras, reprimida, é explicada pelo estigma social que carrega, resultado de falta de informação e preconceito. A missão dos artistas é, apesar disso, levar a arte para o cotidiano das pessoas.