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Toplessaço: a polêmica do topless no Brasil

Posted On Quarta, 08 Janeiro 2014 16:30 |



Por: Larissa Paes.

O que um dos estandartes do movimento feminista do fim da década de 60 bradou? A liberdade sexual. Décadas depois, apresenta-se a ilusão da tão almejada liberdade sexual, pois, na contemporaneidade, vive-se uma farsa acerca da sexualidade feminina. Distorcida pelo meio misógino difuso, principalmente pela mídia. A coisificação, objetivação da mulher, é evocada pelo conservadorismo do machismo para adestrar, controlar e explorar o corpo feminino a seu bel-prazer; sem prejudicar o ‘’sistema’’. A mídia também contribui para a consolidação do discurso machista no sentido da supervalorização da beleza, que é eco dos conceitos dos contos de fadas, em detrimento de uma inserção sociológica, sem o ‘’despertar’’ contra essa ideologia. E não é só de modo explícito que emerge as amarras à sexualidade feminina, mas sutilmente, ou seja, com uma ‘’naturalidade’’ sorrateira, sem ser percebida, de tão arraigada que está.


A repressão sexual feminina eclode, de modo antagônico até, por meio de muitas mulheres, pois a preponderância do patriarcado com suas ideias apresentadas como inatas, incutiram o pensamento machista. A vigilância constante acerca da sexualidade feminina, por muitas mulheres, é evidenciada na verbalização depreciativa àquelas mulheres que ultrapassam o limite imposto, deixando de lado o aspecto discreto e decente da sociedade patriarcal. Este modo de percepção se apresenta com o nome de slut shaming (em suma, adestramento da sexualidade feminina; policiamento). Sendo eco disso a cultura do estupro, o slut shaming justifica o estupro pelo não enquadramento da mulher aos dogmas machistas, evidenciando-se, assim, um lastro desprezível e quase impercebível, em muitos casos.

Como diz a jornalista Cynthia Semíramis:

‘’Declarações de direitos humanos são fundamentais no combate a todo tipo de discriminação contra mulheres, inclusive quando gera violência psicológica. Dentre as diversas declarações e convenções, destacamos a Convenção de Belém do Pará (1994), onde o artigo 6º declara o direito de a mulher ser valorizada e educada livre de padrões estereotipados de comportamento e práticas sociais e culturais baseados em conceitos de inferioridade ou subordinação, e o artigo 8º, g, considera dever de o Estado incentivar os meios de comunicação a formular diretrizes adequadas de divulgação que contribuam para a erradicação da violência em todas as suas formas e enalteçam o respeito pela dignidade da mulher’’.

A culminância contemporânea e generalizada contra o adestramento sexual emergiu do movimento surgido em 2011, no Canadá, chamado de SlutWalk e disseminado fortemente para outros países, como Argentina e Brasil com os nomes de Marcha de las Putas e Marcha das Vadias. Sua principal bandeira é o corpo e uma expressão mais despudorada no sentido da autonomia sexual, ou seja, ‘’sem submeter seu corpo, nos princípios patriarcais, ao tribunal sexista’’, como diz Henrique Marques-Samyn, professor da UERJ. Sendo esta a principal voz na luta contra a cultura do estrupo, legitimada pela articulação do corpo nas vestimentas ditas, nos moldes machistas, “vulgares”.

Como enuncia a filósofa Arleen Dallery: ‘’As práticas discursivas masculinas ou falocêntricas têm historicamente moldado e demarcado o corpo da mulher para ela mesma’’.

 Segundo Michel Foucault, o corpo é visto como controle social, pois é disciplinado para tal, e de forma naturalizada, automática; que culmina em ‘’corpos dóceis’’. Portanto, os corpos das mulheres são adestrados e regulados, e como a vigilância ao corpo é imposta sutilmente, configura-se, assim, uma roda viva.

O feminismo vem redefinindo o papel do corpo como portador simbólico de uma cultura da hegemonia do ‘falo’. A preponderância religiosa, principalmente das virtudes cristãs, que influenciou contextos sócio-históricos, ainda ressoa no modo como se percebe o corpo, a sexualidade feminina, o sexo de modo geral. Praticar topless, nestes termos, é um ato político; no sentido de afirmar o domínio do corpo e colocá-lo como arma para a luta feminista. ‘’A questão do topless é consequência da “queima dos sutiãs” nos Estados Unidos em 1968’’, diz Fernando Gabeira.

A polêmica do topless em voga pela manifestação frustrante do Toplessaço, na praia de Ipanema, no Rio de Janeiro, no dia 21 de dezembro, é ressonância do quão longe a sexualidade está dos rótulos pudicos. Essa manifestação foi organizada, principalmente, pela atriz e produtora de teatro Ana Rios para difundir e popularizar o topless, motivada pela atitude pudica e moralista sofrida por uma colega de profissão em um ensaio fotográfico, no qual foi imposta por policiais a se vestir nos “termos” e “padrões”. O ato foi frustrante antevisto ao número de milhares de mulheres confirmadas pelas redes sociais, porém só foi constatado o comparecimento de 6, mostrando o descaso de muitas para uma questão relevante nos termos da sexualidade feminina. A opressão sofrida através dos jornalistas e curiosos evidenciou o constrangimento provocado pela atitude machista, pejorativa e depreciativa, descaracterizando o ato.

Nas décadas de 70 e 80 no Rio de Janeiro, o topless, com toda a carga libertária, entrou fortemente na seara carioca com a adesão de várias mulheres, inclusive mulheres representativas no cenário artístico. Em plena ditadura militar, a atitude de fazer topless era perturbadoramente desmoralizante, sendo o enquadramento nos termos de atentado ao pudor mais frequente, já que a lei não é explícita e cabe ao juiz interpretá-la. Hoje, o ato obsceno pelo contexto contemporâneo, é rara a pena de prisões de 3 meses a 1 ano, ou multa; mas se legitima pelo constrangimento, humilhação sofrida pelas mulheres ao tentar fazer topless, totalmente subjugadas.

Mas o objetivo da discussão necessária acerca disso foi atingindo, pois depois desse evento, o topless entrou na pauta das discussões sociais. Desta forma, a sexualidade feminina precisa sair de uma redoma articulada para reprimí-la em sua mais livre e verdadeira expressividade.

 

 

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