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Gozações na escola e bullying: saiba como identificar

Posted On Quinta, 11 Janeiro 2018 08:47 | Da redação

Qualquer gozação ou agressão sofrida por uma criança na escola pode ser considerada bullying?

O tema voltou ao debate no Brasil em outubro, quando um adolescente goiano disparou contra colegas dentro da escola, matando dois e ferindo outros quatro, incluindo uma jovem que ficou paraplégica. Ainda investiga-se se ele foi alvo de bullying antes dos atos. O tema entrou para o vocabulário de mães, pais, professores, diretores de escolas e agentes políticos no Brasil faz tempo. Apesar disso, muita gente ainda torce o nariz para a importância do conceito, recorrendo principalmente a argumentos como “na minha época, todo mundo fazia e sofria bullying, e ninguém teve maiores problemas por isso”. Esta abordagem, contudo, apresenta dois vícios fundamentais: primeiro, a crença de que não houve efeitos adversos a médio e longo prazo. Segundo, porque o próprio conceito de bullying pode estar mal-compreendido. 

O Departamento de Saúde e Serviços Humanos do governo dos Estados Unidos define o bullying como um “comportamento agressivo e indesejado entre crianças em idade escolar, manifestado repetidamente e envolvendo real ou percebido desequilíbrio de poder”. Para que seja considerado bullying, portanto, o comportamento deve ser agressivo e incluir estes dois elementos: um desequilíbrio de poder (quando a criança usa sua força física, popularidade ou acesso a informações embaraçosas para manipular ou prejudicar outras) e a repetição (quando o comportamento ocorre ou tem potencial para ocorrer mais de uma vez).

Para a assistente social e autora americana Signe Whitson, especializada em bullying e gerenciamento de conflitos entre crianças e adolescentes, é preciso aprender a diferenciar entre os comportamentos praticados dentro da escola justamente para não banalizá-los - e para saber como interferir em cada situação.

"Se tudo vira bullying, perde importância - e é o que vejo hoje nas escolas", opina Whitson 

"A palavra bullying está sendo usada com tanta frequência que as pessoas pararam de prestar atenção. Os professores dizem, 'estou cansado de ouvir isso'. O problema é que há crianças que estão sob risco real e nós não estamos prestando atenção, porque nos cansamos do assunto."

Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde Escolar (PeNSE), cerca de 195 mil estudantes do 9º ano do ensino fundamental disseram, em 2015, terem sofrido bullying por parte dos colegas.

Sabemos que o bullying tem sérias consequências de longo prazo. As vítimas têm tendência maior à depressão e ansiedade; os perpetradores têm tendência maior de vício em álcool ou drogas ou de comportamento criminoso.

'Maldades e grosserias' x bullying

Nessa categoria é incluído gozações ou desavenças que não cumpram com as três principais características que ela vê no bullying:

1 - O desequilíbrio de poder: é bullying quando um grupo pega no pé de ou exclui uma única criança, ou quando uma criança maior e mais forte alveja uma menor.

2 - A repetição: o bullying costuma ocorrer repetidamente, e não como uma ação isolada.

3 - A intencionalidade: o bullying é uma agressão proposital, feita com o objetivo de humilhar.

Esse espectro inclui agressões físicas e verbais, mas também relacionais - por exemplo, excluir ou isolar alguém socialmente, seja no ambiente escolar ou nas redes sociais. Todas essas ações costumam ter impactos profundos e duradouros tanto nas vítimas como nos praticantes.

Fazer essa distinção não significa minimizar comportamentos agressivos de menor potencial: a crítica de um aluno à aparência do outro, por exemplo, ainda que não tenha caráter repetitivo ou o objetivo de humilhar, pode ser ofensiva. O mesmo pode ser dito de uma agressão física.

Bullying requer intervenção adulta

Casos de bullying, porém, extrapolam a capacidade das crianças e adolescentes de enfrentarem a situação por conta própria. Se há desequilíbrio de poder, intencionalidade e repetição nos atos com a intenção de humilhar, é preciso que adultos reconheçam a gravidade das agressões e intervenham - com cuidado para não agravar o problema.

O papel dos pais

Ainda é comum que pais de vítimas de bullying ou de agressões cotidianas pratiquem dois tipos de comportamento que ela considera contraproducentes.

O primeiro é minimizar as agressões ou deixar as crianças lidarem com elas por conta própria; o segundo é exagerar na reação a qualquer briga dos filhos, já exigindo uma reparação por parte da escola ou da criança agressora e talvez expondo o próprio filho ainda mais.

 

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