quarta-feira, 28 outubro, 2020

Ritos e fé

Quando a Igreja Católica adotou o idioma nacional de cada país, nas missas, houve reação de fiéis habituados às expressões latinas, cujos significados conheciam, desde a abertura, “In nómine Patris …”, passando pelos reiterados “Dóminus vobiscum”, “Et cum spíritu tuo” e “Sursum corda”, até o “Glória tibi, Dómine”, antes da leitura do Evangelho final, geralmente o Capítulo 1º de São João, como constava do Missal Dominical de Mons. B. Vieira e Padre D. Pasquarelli (6ª ed. São Paulo, Pincar, 1960), com o qual acompanhávamos as missas no Colégio Marista. E os padres deixaram de celebrar as missas de costas para o público. Mudanças salutares porque os fiéis passaram a saber o que o sacerdote estava dizendo. Postando-se de frente, melhorava sua comunicação.

A duas mudanças mais recentes manifestei restrições, pelos riscos que ofereciam à saúde. Essas possibilidades existiam antes delas, por simples questão de (falta de) educação. Refiro-me a dar-se as mãos em oração e a cumprimentar-se em nome da paz. Preocupação essa confirmada pelas recentes medidas da Igreja de suspender tais costumes, em razão dos riscos de contágio do novo corona vírus.

Antes desse vírus que está assustando o mundo outras doenças já existiam, provocadas por vírus e bactérias transmitidos também pelo contato físico ou pelo simples convívio no mesmo espaço. O dar-se as mãos nessa rotina religiosa de grandes proporções provavelmente possibilitava esse contágio. Os abraços da paz, da mesma forma, além do constrangimento de algumas situações, como ver-se compelido a cumprimentar ou abraçar alguém que, durante a missa esteve tossindo, espirrando ou assoando o nariz em evidente sintoma de forte gripe, senão de doença mais grave, da qual talvez nem mesmo o enfermo tenha conhecimento.

Foi, portanto, acertada, a decisão da Igreja de suspender essas práticas, assim como a recomendação, inicialmente às pessoas idosas, de não comparecer às missas, por serem as mais vulneráveis à letalidade do COVID-19, segundo especialistas no assunto. A medida foi posteriormente ampliada por normas governamentais para todas as pessoas de todas as religiões, para evitar aglomerações. Contudo, é salutar que os templos religiosos e seus pastores estejam acessíveis, pois podem servir de refúgio para aliviar angustiados e socorrer desesperados.

A pandemia desse vírus ensejou uma campanha de higiene pessoal sem precedentes, que, se as pessoas já tivessem os hábitos agora propalados, muitas outras infecções teriam sido evitadas. Estamos todos pagando um preço muito caro – e não sabemos ainda a extensão desse custo – pelo descaso no cuidado da higiene pessoal e dos ambientes em que vivemos, em casa, na escola, no trabalho, nos lugares de lazer, nos transportes, nos logradouros públicos, onde quer que estejamos, sozinhos ou em grupos.

Talvez o COVID-19 produza mudanças salutares nos hábitos individuais e coletivos e estimule a cidadania a cobrar do Poder Público a segurança sanitária devida nos espaços de sua responsabilidade direta ou indireta, por dever de fiscalização.

E que as mudanças nos hábitos religiosos não afetem nossa fé, que deve estar acima de todas as tragédias.

*Advogado e jornalista

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