Na manhã do dia 19 de junho, estive na UFMA e conversei com a artista visual Silvana Mendes, que além de desenvolver trabalhos com Lambe, com a Fotografia e com a Colagem, ao mesmo tempo estuda para se formar professora e poder bancar sua profissão de artista. Conheci o trabalho dela em uma rede social de compartilhamento de imagens e a convidei para trocar uma ideia sobre a sua vivência na arte, ou melhor, sua sobrevivência.

A arte de Silvana retrata a negritude de forma imagética, por meio da intervenção urbana e busca formas acessíveis de expressão, como o lambe-lambe, impresso e colado com um material produzido com água e farinha de trigo ou cola branca. São muitos processos desde os estudos de composição e referência, a impressão da arte, produção da cola até sua aplicação, demandando do artista tempo e dinheiro.

Lambe da obra Nossa Senhora Comparecida. Foto: Reprodução Instagram

Nascida em um bairro periférico, realidade conhecida regionalmente como “invasão”, ela não se via fazendo outra coisa que não fosse arte. Escolheu a arte no Brasil, região Nordeste, Maranhão, na periferia. Contrariando as estatísticas, entrou na universidade pública, e após ter crescido vendo a mãe e a tia, ambas professoras, trabalhando incansavelmente e recebendo pouco dinheiro para sustentar a família, hoje estuda licenciatura em Arte Visuais na UFMA.

O contexto da arte no Brasil, de sucateamento e desvalorização, inviabiliza que um artista sobreviva exclusivamente de suas obras, uma vez que, com remuneração baixa ou inexistente, torna-se quase impossível que uma negra da periferia, que precisa de retorno financeiro para viver, consiga se dedicar integralmente à sua arte. A profissão ainda é elitizada, tem cor e classe. No caso de Silvana, seus trabalhos já foram expostos internacionalmente em lugares em que ela não pôde se fazer presente por questões financeiras.

“É muito difícil viver de arte em qualquer ambiente que seja. É uma dicotomia, ou as pessoas acham que é uma coisa muito sacralizada, que ninguém tem acesso, ou é uma coisa muito preterida, descartável, desnecessária. A gente vive isso no Brasil. Se você é do nordeste, é mais difícil ainda você viver exclusivamente de arte”, afirma Silvana.

Em meio as suas referências, estão pessoas do seu cotidiano, sobretudo mulheres artistas, que estão presentes no ambiente acadêmico e familiar, enfrentando as mesmas dificuldades para continuar sobrevivendo e produzindo. Ao resistir enquanto artista, Silvana reivindica seu direito de escolha, de ocupar lugares, se expressar e transformar vidas por meio da arte.