sexta-feira, 27 de maio de 2022

G10 Editora

A estranha ordem das coisas

Eerste Wereldoorlog. Generaals Foch en Weygand voor het treinstel in Rehtondes, nabij Compiegne, tussen de wapenstilstandsonderhandelingen van november 1918 door.
Compartilhar no twitter
Compartilhar no whatsapp
Compartilhar no facebook
Compartilhar no telegram
Compartilhar no linkedin

António Damásio, em A estranha ordem das coisas (2017), diz ser desalentadora a “atual crise da condição humana”. Intriga-se porque, apesar da variedade das condições locais mundo afora, “ensejam respostas semelhantes, caracterizadas por raiva e confronto, além de apelar para o isolamento e resvalar para a autocracia” (2017, p. 242).

Para Damásio, tal crise “não deveria estar acontecendo.” Esperava que “pelo menos as sociedades mais avançadas tivessem sido imunizadas pelos horrores da Segunda Guerra e pelas ameaças da Guerra Fria.”

É uma indignação surpreendente para um intelectual que fez suas observações no passeio de seus pensamentos “das longínquas tribulações do Império Romano à atual crise da condição humana”.

A Primeira Guerra Mundial também deveria ter o caráter imunizante pretendido pelo Autor. 17 milhões de pessoas perderam a vida. Antes, a Revolução Francesa (1789), a Guerra de Secessão (1861), a Guerra Civil Espanhola (1936). Serviram, todas, mais para aperfeiçoar os meios de destruição e fortalecer resistências do que para pacificação.

Alexandre, o Grande (356 a. C.), Gengis Khan (1207), Napoleão Bonaparte (1804), os Césares (Século IV a. C.) são outros exemplos de que a ambição do homem não tem limites nem efeito imunizante. Tem versões para manipular as massas, como uma das alegadas por Hitler para deflagrar a Segunda Guerra Mundial: a suposta humilhação imposta à Alemanha no Armistício de 11 de novembro de 1918, em Compiègne, na França.

Para dar visibilidade a tal argumento, Hitler exigiu que a rendição da França, em 22 de junho de 1940, fosse feita no mesmo vagão no qual fora assinado o armistício de 1918. Revanche. Vingança.

Oitenta e cinco milhões de mortos. Mas a indústria bélica evoluiu extraordinariamente. Armas, aviões, navios, submarinos, transportes e tanques de guerra foram aperfeiçoados e construídos intensamente entre 1939 e 1945. Antes, essa indústria já vinha sendo desenvolvida. Incrementou-se no curso da guerra. E não parou mais de aperfeiçoar seu poder destrutivo.

A ciência evoluiu, mas o que a torna útil é a tecnologia. E esta serve para o bem e para o mal. Para Damásio, “Esta poderia ser a melhor de todas as épocas para estar vivo, porque estamos imersos em descobertas científicas espetaculares e brilhantismo técnico que tornam a vida cada vez mais confortável e conveniente.”

Ele mesmo, porém, admite: “Uma parte das sociedades que celebram a ciência e a tecnologia moderna, e que mais se beneficiam delas, parece espiritualmente falida, no sentido secular e espiritual do termo ‘espiritual’. A julgar por sua aceitação despreocupada de crises financeiras problemáticas …, elas também parecem falidas moralmente” (p. 243).

As elites, sejam elas quais forem, não se importam com a humanidade, mas tão somente com o poder. Os rótulos, finalmente, estão sendo desvendados. A desfaçatez descartou os disfarces, os discursos. As relações espúrias já não são mais segredos.

Que se cuidem as pessoas de boa-fé.

– Publicidade –

Outras publicações