quinta-feira, 29 de setembro de 2022

Je vous salue, Godard, sem censura

Jean-Luc Godard era o último Quixote, o Quixote dos Quixotes do cinema mundial. Gênio, louco, anarquista, intelectual, radical; tem um monte de nome bonito que podemos atribuir a ele. Mas ele não era nenhum. Era mais. E morreu ontem à noite, aos 91 anos.

Godard, cineasta franco-suíço, ainda nos anos 1950 já detonava o cinema comercial. Sei que estou no Walden, num ocaso de Zaratustra, e o Godard, aos 91, apesar de ativo, já era um velho combatente.

Mas a verdade é que desde meados dos anos 1970 esse desenho (que é um projeto) comercial, ideológico, de dominação, de controle vem tomando conta, como “aquela escuridão”, de “História Sem Fim”; ou “Sauron”, do Senhor dos Anéis; ou “O lado Negro da força” (expressão politicamente incorreta – que não é acidental, e sim faz parte do projeto ideológico da indústria hollywoodiana), de Guerra nas Estrelas…

Enfim… a gigantesca máquina de fazer dinheiro fácil, com seu marketing pré-montado, ativo e operante, contagioso e protegido como um narcotraficante com mandato de senador, tomou conta de vez do cinema mundial. O resto é guerrilha.

“Ah! Ainda existem bons filmes, Geraldo!”, dizem os românticos. Tudo cópia da cópia. E sobre eles, a torto e a direito, ainda temos as intoleráveis cenas de perseguição; seja de carro, de moto, de barco, de avião, a pé… Sempre o mesmo desenho, com sua trilha sonora enfática e hipnótica… Nos anos 1980 eram as cenas eróticas (com seu mesmo desenho). Filmes de humanidades sempre nos tocam, nem que sejam cópias: “As pontes de Madison”, “Melhor impossível”, “Broke back montain”… tem vários.

Godard gostava do Brasil

Godard até fez um filme com Glauber Rocha: o cara do Cinema Novo e o cara da Nouvelle Vague. O segundo fez o documentário Maranhão 66, que documentou a posse de José Sarney como governador do Maranhão, em 1966. O primeiro teve seu filme “Je vous salue, Marie!” censurado, quando Sarney era Presidente da República, 20 anos depois, em 1986 (e não havia mais censura no Brasil!).

Sei… São apenas recortes de uma megacena em cinemascope filmado por David Lean (que Junerlei acha “cinemão”), e gagas (ou quase sem falas – quase uma fábula do tipo “era uma vez”,  de Sergio Leone – é cinemão, Junerlei?). Mas o cinema de arte é assim: “quando é pra falar, ele toca; quando é pra tocar, ele fala”.

Queria mesmo que Hollywood (e seus milionários) fosse um cenário de “Meu ódio será sua herança”, onde, no fim, todos morrem, até os cachorros. Sobram apenas dois velhos amigos-inimigos exaustos e desiludidos. Salve Sam Pekinpah!

No mais, outro dia li a declaração de uma professora de um curso de comunicação (pasmem!) dizendo que aquele filme “Moleque, tu é doido” (acho que era esse), era “o novo Cinema Novo brasileiro”. Beleza! Então tá.

A maioria nem sabe quem é Godard, porque tá assistindo a última saga do homem aranha, ou dos vingadores, au, ainda, a útima série da netflix. Ainda tem filmes bons? Até tem, afinal os grandes dramas de Shakespeare mantinham um roteiro que dava certo. Depois da morte dele, se alguém usou, parece que não ficou pra história.

No século XIX, quando a arte se libertou de “paradigmas de concreto” e os artistas das mais diversas artes e vertentes propuseram uma nova forma de interpretar o mundo, muitos entraram em parafuso. Retratistas reclamando da fotografia, figurativos reclamando de abstracionistas…

Uma grande notação, que encontramos no maravilhoso “História da arte moderna”, de H.B. Chipp são dois manifestos sobre a “arte moderna”. Uma delas, do genocida Adolf Hitler, onde condena veementemente a arte moderna, baseado em Nietzsche; outra do pintor Giorgio De Chirico, que defende veementemente a arte moderna, baseado em… Nietzsche. (Junto com o Ator Charles melo, encenamos isso no final dos anos 1980).

No começo do século XX, seguindo por quase todo o século, muitos pensadores, artistas, sociólogos, antropólogos, físicos, religiosos e, também, muitas espécies de facínoras tentaram compreender o mundo sob o teto da modernidade. Por muitas décadas se falou de uma “pós-modernidade”, quando o projeto de modernidade criado, instalado e desenvolvido no tecido social estaria criando e absorvendo um novo paradigma de construir e interpretar a História, mas nos últimos anos essa concepção vem perdendo terreno para outra interpretação.

Uma nova interpretação traz elementos muito interessantes, senão aterrorizantes em relação ao “projeto de modernidade”. Que não vivemos uma “pós-modernidade” e sim uma hipermodernidade (Lipoveteski). Também encontramos isso em Bauman e sua modernidade líquida, onde ele propõe que os projetos de modernidade criados a partir do século XVII e exacerbados no século XXI estão em contiguidade e a todo vapor. Voltando ao cinema hollywwodiano (que sempre se entrega) podemos comparar os “exterminadores do futuro”: o último era líquido! Saímos do panóptipo para o algoritmo.

Mas isso já foi previsto para um dos grandes intérpretes da modernidade, que escreveu ainda em meados do século XIX. Neste momento de individualidades e bem comum altamente dissolvidos: “Tudo que é sólido e estável se desmancha no ar” (Karl Marx).

São apenas recortes de um jornalista (e não um pesquisador acadêmico) que ama o cinema, a história do cinema e seus gênios criadores; sem desconhecer seus verdugos e seus cafetões. Tudo aqui foi escrito de memória, sem google, sem livros abertos, e sem um roteiro fechado, como um documentário deve caminhar.

Uma homenagem, simplesmente. Salve jean-Luc Godard!!!

– Publicidade –

Outras publicações