quarta-feira, 30 de novembro de 2022

O boneco foragido

Cena do filme Psicose


Viralizou nas redes sociais o vídeo de uma ilustre autoridade pública, supostamente representante do Vestíbulo de Dante, no qual a exuberante personagem, aparentemente possuída pelos poderes da Grayskull, esfaqueia um boneco que se encontra inerte, amarrado a um poste. Nem o boneco nem o poste reagem. Mas a She-Ra caricata não se contenta em meter a faca no indefeso boneco e associa à inusitada virulência de seus gestos gritos de instigação e risos que nem Freud, Jung ou Lacan saberiam explicar. Talvez John Huston ou Montgomery Clift, ou mesmo, quem sabe, Alfred Hitchcock ou Anthony Perkins.
Corajosa, não temeu a mão ousada, impiedosa e cruel do Hades, que, pela passividade dos vestibulenses, avocou para si todas as atribuições, possibilidades, competências e poderes dos reles mortais de todas as esferas, decidindo sobre a vida e a morte e especialmente a liberdade e a opinião de todos e todas – inovação vocabular com que oradores criativos fazem sua saudação, curvados aos avanços de caranguejo da última flor do Lácio, cada vez mais inculta e menos bela.
A She-Ra ensandecida confiou em que mesmo os deuses têm suas preferências e afinidades. Apostou que fazendo as mesmas coisas que outros fizeram, poderia escapar das ímpias e sumárias medidas do variado tipo de arbitrariedade, pulseiras, tornozeleiras, mordaças e cárceres que Hades impõe a quantos quer, impunemente, sem que às vítimas de sua sanha possam socorrer as extintas garantias do devido processo legal, do contraditório, da ampla defesa. Bastaria que She-Ra escolhesse para sua fúria um boneco que fosse também o alvo do olhar psicótico de Hades.
Assim o fez. Vestiu-se à caráter, em dança de guerra de fazer inveja aos apaches, comanches e sioux em seus ataques cinematográficos aos caras-pálidas, e, corajosamente, ao estilo travestido de Norman Bates, esfaqueou com esquizofrênica alegria o boneco inerte, imobilizado e indefeso.
O boneco sobreviveu. Está foragido.
Mas Hades, monocraticamente, já o indiciou, julgou e condenou por estar amarrado a um poste público e decretou sua prisão, a ser cumprida em cela solitária, incomunicável, monitorado com tornozeleira eletrônica.
O poste foi preso em flagrante no local do crime, por cumplicidade, e Hades o sentenciou a ser queimado no próximo São João e suas cinzas jogadas para num lago pairar no ar.
Preocupado com She-Ra, Hades já lhe concedeu, de ofício – vício em que se tornou inveterado – Medida Protetiva de Urgência para que o boneco não se aproxime dela, nem tente entrar em contato por código Morse, telefone, WhatsApp, Telegram, e-mail, sinais de fumaça ou telepatia.
Nem pombo-correio, sob pena de determinar a prisão de Raimundo Correia, responsável pelas dezenas de pombas que se vão dos pombais, apenas raia sanguínea e fresca a madrugada.
Prevenido, o autor de As Pombas já se escondeu. Hades anda à procura de um terreiro para tocaiar o poeta.

Carlos Nina é advogado e jornalista. Juiz de Direito aposentado. Ex-Promotor de Justiça. Membro nato do Conselho da OAB-MA

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