Em linhas gerais, tanto a antropologia brasileira quanto a estrangeira –brasilianistas – construíram a imagem do povo brasileiro como sendo um povo pacífico, dócil, hospedeiro, generoso e avesso a conflitos.

Contudo, em Raízes do Brasil – O Homem Cordial, cap. 05 –, Sérgio Buarque de Holanda, aponta que a cordialidade do brasileiro, traduzida no horror a distanciamento ritualístico, formalidade e convencionalismos, em verdade, é uma mascara que permite ao brasileiro a concretização dos propósitos intimistas – normalmente apropriando-se do Estado para tal.

Inspirado em Sérgio Buarque de Holanda, o antropólogo Roberto da Matta, na sua obra O que faz o Brasil, Brasil? Explicita o comportamento informal e improvisado do brasileiro ante às questões cotidianas, independente do grau de complexidade – desde a política até o mero convívio domestico.

Ainda, importa ressaltar, Raymundo Faoro, em Os Donos do Poder, disserta sobre o processo de assimilação do Estado (brasileiro) pelo estamento burocrático – patrimonialismo – demonstrando como os “amigos” do Poder – ora traduzido na figura do monarca, ora nos pequenos grupos de poder (oligarquias) – valem-se das relações particulares e intimistas para subverter o Estado a seus interesses.

Nesse horizonte, o ambiente político brasileiro sempre foi orientado pela  plutocrática, de sorte que as questões nacionais, tradicionalmente, são “debatidas” e “solucionadas”  às escuras, em gabinetes e pequenas mesas, onde a linguagem praticada não é a republicana, mas sim da “Res Privada” – privada em todos os sentido, como bem disse Rui Barbosa –  o que naturalmente afasta o povo do centro das decisões.

Afastado do poder, o povo brasileiro, salvo raríssimos momentos históricos – “Caras Pintadas” e “Diretas Já”, p.ex. – notabilizou-se pela passividade e apatia. Contudo, desde 2013, quando – supostamente – “O gigante acordou” e milhões de brasileiros foram às ruas protestar – pautas diversas, normalmente ligadas a direitos sociais e combate a corrupção – tem sido recorrente manifestações de rua, ainda mais após o processo de impeachment que afastou a ex-presidente Dilma Rousseff do Palácio do Planalto, a prisão do ex-presidente Lula e a eleição de Jair Bolsonaro, visto que tais eventos agravaram a polaridade entre direita e esquerda no País, fomentando um ambiente belicoso de animosidades de toda ordem.

Agora o ambiente político é marcado pela polarização (entre direita e esquerda; coxinhas e mortadelas; #elesim e #elenão; bolsominios e lulistas e etc.), beligerância e completa ausência de diálogo. Certamente esse ambiente terreno é estéreo para o plantio e colheita de solução para superação da crise brasileira – política, econômica, fiscal, ética, institucional…–, mas tem sido fértil para aflorar um espirito revolucionário no brasileiro, independentemente do espectro político que o cidadão se identifique.

Somente nesse mês de maio aconteceram três mobilizações nacionais, sendo duas de “oposição” (contra o contingenciamento dos recursos do MEC) e um de apoio a Jair Bolsonaro. Isso sem contar a beligerância diária no ambiente virtual. Assim, não há como negar que um número expressivo de pessoas – sobretudo jovens – tem ido às ruas – muitos pela primeira vez e às vezes sem convicção do que realmente querer – protestar, algo inédito na historia republicana brasileira.

Nesse sentido é possível que o ambiente polarizado e belicoso tenha finalmente acordado o gigante, fazendo-o abandonar  o berço esplêndido, processo que se for continuo certamente gestará, conforme expõe Márlon Reis (em O gigante acordado), um Brasil crítico, irresignado, “capaz de se engajar em causas que ultrapassam os limites da perplexidade omissa que sempre marcou nossa cultura política” e, então, teremos a tão sonhada REPÚBLICA (DEMOCRATICA) FEDERATIVA DO BRASIL.

Desta feita, esse espaço será um ambiente arejado e plural, onde serão expostas opiniões acerca dos acontecimentos que impactam diretamente no cotidiano do cidadão maranhense, no intuito de contribuir com o amadurecimento cívico do cidadão maranhense.