quarta-feira, 1 de fevereiro de 2023

O SOM QUE FAZ A CIDADE

O pregoeiro passa pela rua cantando sua venda de cuscuz, eu fui lá conferir porque a final de contas, ideal mesmo é ouvir um reggae com o bucho cheio né mesmo?! O som das “pedras” no caso vinha do meu vizinho que com sua radiola caseira tocava a música de Bob Marley, e ainda eram 3 da tarde, tava longe do batalhão do Boi de Maracanã na praça de Santo Antônio, festejo onde o padre toca o sino que soa a canção dos fieis.

Essa é uma sinfonia urbana composta por um fragmento da tarde na cidade de São Luís. Seus artistas no palco das ruas fazendo do vai-e-vem da sobrevivência a existência da orquestra do dia a dia.

Uma cidade pode ser caracterizada de várias formas, o som é o mais forte delas, no sotaque do povo, sua música, seus arranjos sonoros aparentemente espontâneos com seus ritos, divino, profano, etílicos na construção frequente. Apesar do iminente caos, ou ruído, da buzina, do ronco de motor, das sirenes e da gritaria. Baixado o volume da correria e subida da percepção é possível reconhecer a cidade na harmonia cotidiana da beleza dos sons.

Seus tambores, seus amores em canções, o aleijadinho que canta Coxinho por alguma moeda, o vendedor que grita em sol maior sua peça, São Luís uma ilha de sons cercada de tons por todos os lados, a máquina que descascar o alho na mesma batida do enredo de carnaval das matracas que guarnecem o ponto de ônibus no São João, o vento que assovia o groove nas palmeiras, os loucos que fazem da vida uma festa acendendo o pavio dos canhões, outros, arrochando uma dança no mercado do peixe.

São Luís em som e essência com sua história cantada por negros, indígenas, pelos metais e pólvoras europeias, de nações orientais que vai do pandeirão ao Kabão, da Justiça desafinada, dos coros de resistência, da ruína da banda dos casarões, do amor, do lamento, da solidão, mas nunca do silêncio.


O som nos liga ao ambiente em reações nem sempre equilibradas, mas está diretamente relacionado à nossa identidade, projetando nossa forma de vê e estar no mundo, a cidade pelo ouvido é muito mais do que qualquer outro sentido.

E foi assim que disse Deus “haja luz” porque precisou do som antes de tudo para criar todas as coisas.

Eu sou Beto Ehong e a gente se encontra na cidade que faz o som ou seria no som que faz a cidade?!

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