quarta-feira, 23 setembro, 2020
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Entrevista com o médico Intensivista na pandemia Dr. Carlos Sousa

Os profissionais da área da saúde em tempo da pandemia do COVID-19 estão sendo reconhecidos como verdadeiros heróis. Arriscam sua própria segurança e de sua família visando o bem de toda a sociedade.

Em virtude da sobrecarga e condições de trabalho, sem esquecer as experiências que são vivenciadas, esses profissionais acabam por sofrer sérios abalos psicológicos e o esgotamento físico. E não são casos isolados ou raros, há muitos relatos. Algo que deixará marcas em suas vidas.

Foto: Reprodução

O Maranhão, especialmente a capital, destacou-se pelos altos índices de contaminação do coronavírus e a superlotação dos hospitais e UTI´s, motivo pelo qual foi decretado em São Luís o lockdown. Uma das primeiras cidades do país a enfrentar a paralisação quase que completa de todas as atividades. Aos poucos estamos seguindo rumo “novo normal”, mas não sabemos se o pior realmente passou ou se isso não retornará. Com o COVID-19 tudo é incerto.

Para trazer algumas experiências e esclarecimentos sobre o momento de crise sanitária que estamos passando, entrevistei Dr. Carlos Sousa, médico Intensivista titulado pela AMIB, especialista em ECMO pela Elso:

1 – Como médico intensivista, recorda-se do primeiro paciente que subiu para UTI vítima de COVID ?

Resposta: Lembro sim, todos estávamos muito apreensivos. Um paciente que vinha de viagem nacional. Foram momentos de muita apreensão nos primeiros dias de cuidado. As notícias que tínhamos e as informações sobre prognósticos eram muito desencontradas. Felizmente conseguimos dar alta deste paciente para casa quase um mês depois da internação

2 – Por que causou tantas mortes em tão pouco tempo?

Resposta: O COVID é um doença social. As mortes causadas por COVID são de duas “fontes” principais: A doença em si e o abarrotamento de leitos e necessidade de internação.

Cerca de 15% da população doente precisa de internação, essa quantidade de uso do sistema de saúde e principalmente das UTI’s, que vivem sistematicamente lotadas, ocasiona boa parte dos óbitos do COVID, e de outras doenças. Há necessidade de mais leitos para o cuidado da nossa população

3- Como o Sr. vê a realidade da saúde Pública daqui pra frente, digo hábitos da população?

Resposta: Os hábitos vão mudar. Temos que entender como lidar com uma doença respiratória grave, e a transmissão é Respiratória. É muito importante entender que aglomerações eventos de alta lotação são ninho para esse tipo de doença. Vivemos sazonalmente surtos de gripes que são muito graves. O H1N1 ainda circula na nossa comunidade e vítima pessoas com frequência. O COVID é especial pela alta taxa de transmissão, o que torna o problema monstruoso

4- Sabemos que houve momentos de tensão em todo mundo, o Sr. ou sua equipe passaram por algum momento de escolha difíceis ?

Resposta: Escolhas difíceis são rotina para toda equipe de UTI.

Temos uma vida de um ser humano entregue ao nossos cuidados. Não há espaço para erros ou segundos pensamentos. As ações tem que ser tomadas com a mesma rapidez que os problemas emergem. Vários foram os momentos de dificuldades e tristezas. Outros de orgulho e gratidão, felicidade. Todos da área da saúde nesse período trabalharam e trabalham ainda, não como heróis, mas como seres humanos tangíveis e cheios de angústias, mas permanecer no seu posto durante uma dificuldade é louvável e corajoso. Ficamos e ficaremos até o final

5 –  Em algum momento pensou em desistir?

Resposta: Pensar em desistir é um luxo que essa Pandemia não nos deu. Depois disso tudo, férias serão obrigatórias (risos)

6 – O que  motivou o Sr. a continuar?

Resposta: A necessidade da população. Sem dúvida esse é o motor

7 – Que lição o Sr. tirou desse momento único, diga-se, histórico?

Resposta: Que é difícil viver em um momento histórico (risos). Não tínhamos experiência de lidar com uma Pandemia anteriormente, ninguém no Mundo todo tinha. Aprendemos que devemos contar com a Ciência e não com “achismos”. Opiniões “técnicas” de quem não é da ciência atrapalhou muito. Vários tratamentos foram sugeridos de maneira irresponsável e nenhum tratamento está isento de consequências. Talvez numa saberemos as consequências reais dos atos irresponsáveis de lutar contra as evidências da ciência.

8- Algum  caso de algum Paciente  lhe marcou no momento entre a vida e a morte?

Resposta: Tivemos muitos colegas da área da saúde sendo tratados. Muitos deles ficaram muito doentes com necessidade de intubação e uso de ventilação mecânica. Nossos amigos de todo dia, dos corredores de hospital, alguns amigos também de “dentro de casa”. Muitas e muitas tragédias. Famílias inteiras. Não foi apenas uma vez que pai e filho internaram ao mesmo tempo, ambos de forma grave, na mesma UTI

9 – O Sr. acha que a doença necessitava de toda essa preocupação ou se passa de mais uma influenza no catálogo médico?

Resposta: Merece toda a preocupação. O Mundo não teria parado, a economia mundial sofrido tanto, todos os alarmes que foram dados se não estivéssemos lutando contra uma doença que mais parece um pesadelo, nas formas graves. Temos que entender, de uma vez por todas, que a Humanidade é feita de seres humanos, com histórias únicas. Não podemos negociar com a Vida. O dinheiro de nada vale se comparado com a Vida de qualquer pessoa

10 – Qual lição o Sr. acha que os gestores dos setores públicos ou privados devem tirar de todo esse caos ?

Resposta: Precisamos cuidar da nossa gente. Precisamos de mais profissionais e melhores remunerados. A equipe de enfermagem é fundamental em qualquer cuidado em UTI e vemos diariamente a não valoriza ao desses profissionais. O caminho de valorização do profissional de enfermagem é fundamental. Nossos sucessos na beira do leito são fruto do trabalho de todos da área da saúde e de cargos associados ao cuidado, equipe de serviços gerais, nutricionistas, fisioterapeutas e todos os envolvidos. Temos que valorizar cada profissional da área da saúde.

O certo é que mesmo entrando em uma nova fase, pelo menos aqui no Maranhão, não devemos relaxar, mas continuarmos firmes com as medidas de biossegurança, como, por exemplo, higienização das mãos, uso de máscaras, cuidados com o fortalecimento da imunidade, e seguir as normas sociais preconizadas pela ANVISA e vigilância sanitária.

É assim que buscaremos evitar a segunda onda, ou nova em situação de crise sanitária, tal como temos visto acontecer em outros estados, e nos resta aguardar pacientemente uma vacina .

Foto: Reprodução

Por Luiza Carvalho,
Membro da Sociedade Brasileira de Toxina Botulínica e Implantes Faciais
Cirurgiã-Dentista / Endodontista
Cro-ma 3129
Instagram: @luizacarvalho
e-mail: luiza_scarvalho@hotmail.com
whats app: 98-984058874

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